PREFÁCIO
Convidou-me para escrever este prefácio Paulo Sérgio Leite Fernandes. Antes sugerira-me preceptor de Ana Maria Babette Bajer Fernandes com vistas a seu Mestrado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Este o histórico formal.
A solicitação precipita um avocar de idéias.
Um prefácio enquanto prefácio perdeu o seu sentido.
O prefaciador, agora, deveria ser menos um árido jurista e mais um sensível poeta.
Àquele resta pouco. Apenas a crítica desnecessária sobre o incriticável necessário. Ao pensar basta ser, ser projeção do que não se submete aos contornos.
A mim incumbe o dever de testemunhar para além da ciência.
Falar da opressão de quem já era sem saber.
Da intuição do horizonte para diante dos espinhos.
Do desatavio interior gerado pela oposição dos impulsos.
Da soltura de imaginação, da alma grande que feriu o sentido da tortura com a amplitude aguda do terapeuta analista.
O tema aqui é antes a liberdade do que a tortura. Esta a imensa vocação.
Pouco mais a dizer, Ana Maria. Você conversa com Fernando Pessoa, até sobre a inutilidade dos prefácios:
"Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.
Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passa,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei;
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.
Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu."
(Fernando Pessoa, "Cancioneiro").
Ricardo Antunes Andreucci
São Paulo, 6 de setembro de 1981.
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